| A vaca do Renan no Flor do Lavradio
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| Fritz Utzeri, jornalista
- Eu quero a vaca do Renan! Apolônio, o indignado, entrou berrando no Flor do Lavradio, para espanto do Seu Manuel que cortava uns limões no balcão, de Rosalvo, o despreocupado, que saboreava uns risoles de camarão da Otília, de Fefeu, o Filósofo, e de Harald Magnussen, Magu, o jornalista sueco que faz do botequim o seu escritório. Ninguem entendeu.
- Vem cá, Apolônio, você está se referindo à "gestante"? - perguntou Fefeu.
- Que "gestante" que nada, estou me referindo a gado mesmo. O Renan é um gênio da pecuária, ele vende gado em Alagoas por um preço muito acima do conseguido pelos pecuaristas paulistas e, além disso, inventou a vaca fria, todos os recibos de venda são gelados. É melhor que plataforma de petróleo! E como se não bastasse, 86% de suas vacas emprenharam e pariram 751 bezerros em um ano, uma façanha, um recorde não alcançado nem mesmo por ranchos do Texas, usando inseminação artificial e alta tecnologia...
- Ué, mas há alguns dias o administrador não disse aos jornalistas que o gado do Renan não cobria nem as despesas da fazenda? - lembrou Fefeu.
- Vai ver o Renan tem um monte de "gestantes", o homem é uma fera, não usa camisinha e por R$ 16 mil a cada "bezerro", haja vaca... Mais um chope aqui, Seu Manuel - emendou Rosalvo, com ar malicioso.
- Pois é, e o homem quer ser absolvido e arquivado sem qualquer exame das acusações, apesar de ter as suas despesas de pensão com a "gestante" pagas por um lobista da Mendes Júnior, de ter ligações com o cleptobudista Zuleido Veras e de ter fazendas em nome de laranjas, acusação que nega com a mesma cara-de-pau do Maluf quando diz que não tem contas no exterior. Os seus "juízes", Tumão, Sibá e Cafeteira, já deixaram claro que amam Renan de paixão e farão o impossível para evitar que a vaca dele vá pro brejo... - disse Apolônio.
- Tudo mui amigo... - brincou Rosalvo.
- Aliás, em matéria de amigo, esse pessoal do governo tem amigos, ah!, isso tem! Vejam o Paulo Okamoto, que pagou uma dívida de R$ 29 mil do presidente e nem pensou em cobrar; agora é o ex-governador do Maranhão, José Reinaldo Tavares, acusado por Ricardo Murad, de morar num apartamento de padrão superior a seus rendimentos e que teria sido reformado por R$ 800 mil. Murad, o acusador, vem a ser cunhado da Roseana e irmão daquele outro que vendia casas na planta e exigia pagamento cash e sem recibo, juntando uma montanha de dinheiro em seu escritório, lembram? - continuou Apolônio.
- Sim... escândalo velho esse, mas o que tem a ver com amigos? - perguntou Fefeu.
- É que o Zé Reinaldo garante que o apartamento não é dele, é de um amigo de infância, Mauro Fecury, que mandou restaurar e mobiliar de forma luxuosa apenas para emprestá-lo ao amigo sem cobrar nada, aliás o próprio Luiz Inácio não morava, de graça, no apê de um compadre? - explicou e perguntou Apolônio.
- Puxa, que bonito, que despreendimento, estou quase às lágrimas, ninguém me arranja um amigo do peito assim - queixou-se Rosalvo, fazendo cara de choro.
- Aliás, não faltam "amigos dos amigos" nessa história toda - emendou Fefeu - uma mão lava a outra.
- E todos riem da gente, até quando? - perguntou Apolônio, zangado.
- Relaxa e goza, meurmão - gozou Rosalvo.
- E por que ninguém apela para a Justiça? - interveio Magu, que até ali estivera calado, com ar abobalhado e parecia não estar entendendo nada do que ouvia.
Nem o Seu Manuel conseguiu segurar a gargalhada estrondosa em que o botequim explodiu...
Fonte: Jornal do Brasil, 17/6/07 |
Primeiro editorial do Estadão, 08/12/2025 - "O Supremo está com medo".
O Supremo está com medo Com a tentativa de limitar a possibilidade de impeachment de ministros, o STF afirma, em essência, que precisa se proteger do resultado da eleição para o Senado, um evidente disparate A liminar do ministro Gilmar Mendes que reescreveu o rito de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal marca um divisor de águas. Não se trata de interpretação, mas de mutação, ou melhor, de mutilação constitucional por canetada. Um único ministro eliminou o direito do cidadão de apresentar denúncia, entregou ao procurador-geral da República um monopólio acusatório inexistente na Constituição, elevou o quórum do Senado a patamar impraticável e aboliu o afastamento cautelar do acusado. É difícil imaginar gesto mais despudorado de autoblindagem – e mais contrário ao espírito republicano que o constituinte pretendeu instaurar. O ministro se justificou dizendo que a Lei do Impeachment, de 1950, está “caduca”. Ora, leis não “caducam”, a não ser que o legislador resolva ...
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